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Acordo UE-Mercosul deverá agravar défice comercial

Acordo UE-Mercosul deverá agravar défice comercial

Acordo UE-Mercosul deverá agravar défice comercial

Embora a população portuguesa não deseje ver o acordo UE-Mercosul ratificado, o governo português tem-se mostrado o maior entusiasta deste acordo na União Europeia e tem usado o facto de ocupar a Presidência do Conselho da UE para o promover. Isso suscita uma questão: porquê?

Uma razão muito importante diz respeito à produção de azeite. O azeite português é particularmente apreciado no Brasil, podendo até ser visto como um produto de alto valor acrescentado. De facto, a maior exportação portuguesa para o Brasil são as gorduras e óleos vegetais, uma categoria dominada pelo azeite. O volume de negócios associado ao azeite vendido ao Brasil em 2019 rondou os 220 milhões de euros, um valor quase igual ao do petróleo em bruto comprado por Portugal ao Brasil.

Outros produtos agrícolas e bebidas alcoólicas (dominadas pelo vinho) correspondem a cerca de 170 milhões de euros em exportações nacionais, que totalizaram 750 milhões de euros em 2019, sendo que a estimativa para 2020 é semelhante (ligeiramente inferior). Esta preponderância dos produtos agrícolas nas nossas exportações pode ajudar a explicar o entusiasmo da Ministra da Agricultura com o acordo, não obstante a oposição da Confederação Nacional da Agricultura e dos pequenos agricultores por todo o país, em especial nos Açores.

No entanto, quem vê o entusiasmo do governo português com o acordo talvez se surpreenda ao descobrir que a balança comercial entre Portugal e o Brasil é deficitária e o défice (português) é bastante significativo: 280 milhões de euros em 2019, mais de um terço do volume de exportações, sendo que a estimativa para o défice comercial em 2020 corresponde ao quádruplo desse valor.

Do Brasil importamos, além de petróleo e derivados, soja, milho, frutas, matérias vegetais, mas também ferro, produtos laminados e outras matérias primas. O total correspondeu a um valor de 1030 milhões de euros em 2019, mas as estimativas relativas ao ano 2020 apontam para 1640 milhões de euros.

Quais os impactos do acordo UE Mercosul no comércio entre Portugal e Brasil? Infelizmente não é possível saber ao certo: o governo está com tanta energia a defender um acordo sem antes ter realizado nenhum estudo sobre os seus impactos no nosso país. No entanto, grosso modo, faz sentido dizer que o acordo deverá aumentar os fluxos comerciais entre Portugal e o Brasil, conduzindo a um aumento tanto das importações como das exportações. Isso significa que o saldo comercial entre Portugal e o Brasil deverá tornar-se ainda mais deficitário. Parece também muito plausível que isso contribua para prejudicar o saldo comercial português no seu todo, o que poderá ser prejudicial para a economia portuguesa.

Tanto quanto sabemos, será prejudicial para os salários nacionais.

Torna-se então mais difícil de defender que, para facilitar a vida a quem exporta azeite, se prejudique a economia nacional, se afecte negativamente os salários dos portugueses, ao mesmo tempo se contribui para devastar a biodiversidade do outro lado do Atlântico, para agravar as alterações climáticas, e se acentua a cumplicidade com um autêntico genocídio dos povos indígenas.

Acordo UE Mercosul devera agravar defice comercial