logo Troca linha TROCA - Plataforma por um comércio internacional justo

Afinal, tudo na mesma

Afinal, tudo na mesma

Afinal, tudo na mesma

Um texto recente publicado nesta página perguntava se a União Europeia vai rever a sua política de comércio. Tendo em conta que muitos dos problemas que dificultaram uma resposta eficaz à pandemia prendem-se com a existência de uma rede de comércio pouco resiliente, com cadeias de produção com poucas redundâncias e muitas vulnerabilidades, Phil Hogan, comissário do Comércio, declarou que a União Europeia iria rever a sua política de comércio este ano e não no próximo. Estariam em cima da mesa a necessidade de reindustrializar alguns sectores e o de diversificar as cadeias de produção. As forças que apelaram a que este reajuste fosse “limitado” não precisam de se preocupar. Afinal, vai continuar tudo na mesma.

O acordo entre a União Europeia e o México já foi anunciado. Em vez de limitar a abrangência do acordo, como se esperaria tendo em conta a suposta alteração da política de comércio da UE, o exacto oposto aconteceu. Onde o acordo original abrangia fundamentalmente bens essenciais e maquinaria, o novo acordo também abrange os sectores agrícolas, financeiro, e de comércio electrónico. O caso da agricultura é particularmente perturbador tendo em conta que acabámos de concluir que as redes de comércio que resultam deste tipo de enquadramentos são excessivamente vulneráveis: numa próxima crise deste tipo poderão faltar, em vez de máscaras e medicamentos, todo o tipo de alimentos. Em relação ao sector financeiro, parece que a crise de 2008 e 2011 já está distante o suficiente para nos esquecermos de como o aumento da integração dos sectores financeiros pode acentuar vulnerabilidades.

Por outro lado, foi anunciado aos diplomatas da UE que trabalham na área do comércio que se planeia, até ao fim do ano, alcançar um acordo de protecção de investimento com a China. Têm existido dificuldades nas negociações mas prendem-se com o facto dos mercados europeus já estarem tão abertos que não existem muito mais cedências acrescidas que os europeus possam fazer para seduzir as autoridades chinesas. Não obstante, têm existido pressões vindas de Berlim para que se façam todas as cedências que sejam necessárias.

A economia europeia está muito dependente das exportações, e – como a China deverá ser das primeiras grandes economias a recuperar da pandemia – seria alegadamente vital para as grandes empresas europeias ter acesso a esse mercado logo no início da recuperação, sem estarem numa situação de desvantagem face às grandes empresas norte-americanas. A alternativa – estimular a procura interna – é considerada excessivamente cara.

Qualquer semelhança entre estas preocupações e as relativas à existência de cadeias de produção excessivamente vulneráveis e dependentes da China não é uma coincidência, mas sim uma contradição. Entre a transformação das redes de comércio e produção para criar um sistema mais seguro e resiliente e a saúde financeira das grandes multinacionais, parecem existir muitas dúvidas no discurso, mas poucas na acção.