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Charles Sannat: “Submissão : doravante, os EUA validarão as leis europeias !”

Charles Sannat: “Submissão : doravante, os EUA validarão as leis europeias !”

Charles Sannat: “Submissão : doravante, os EUA validarão as leis europeias !”

A liberdade é a possibilidade de escolher coletivamente um destino. A liberdade, por definição, apenas se concebe e se exprime num quadro de respeito pela soberania.

Esta soberania pode ser nacional, poderia no limite ser europeia, com a ressalva de a Europa ser outra coisa para além de uma ferramenta de propaganda que assegura, no mínimo, a nossa submissão aos interesses americanos, interesses esses que já não são, desde há muito, os interesses do povo americano mas antes os do totalitarismo mercantil incarnado pelo “big business” e as suas multinacionais predadoras tanto dos homens como das almas e dos recursos.

 

A Europa sob tutela “contratual” americana!

 

Foi o jornal britânico The Independent (só o nome do jornal ainda deve significar alguma coisa para alguns) que fez circular a informação ao divulgar um documento obtido através do grupo de ação independente Corporate Europe Observatory (CEO) durante as negociações da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) entre a UE e os Estados Unidos.

Este último revelou que será instalada uma comissão não eleita: terá poderes de decisão em domínios onde uma cooperação com Washington deveria ter lugar afastando, assim, os estados-membro da EU e o Parlamento Europeu.

O objetivo principal do TTIP é o de harmonizar as regras transatlânticas num largo espetro de domínios incluindo a segurança alimentar e os produtos de consumo, a proteção do ambiente assim como os serviços financeiros e bancários.

Este documento mostra um labirinto de procedimentos que poderão armadilhar todas as propostas da UE que sejam contrárias aos interesses dos Estados Unidos, estima o grupo de ação.

De acordo com os procedimentos revelados no documento, as autoridades reguladoras americanas terão um “papel discutível” no processo legislativo de Bruxelas e, assim, enfraquecerão o Parlamento Europeu.

Nick Dearden, diretor do grupo de ação britânico Global Justice Now, afirma que é “assustador” que os Estados Unidos possam ter o poder de contestar e de modificar os regulamentos europeus antes que os políticos europeus tenham tido a oportunidade de os discutir.

 

O Tratado transatlântico é, na realidade, a morte da ideia de Europa!

 

Estou aterrado ao ouvir o silêncio.

Estou aterrado ao ver os “progressistas” europeus “badalar” a Europa em permanência e não se aperceberem que um tal tratado é a morte de um qualquer ideal europeu, a participação de óbito de toda e qualquer soberania da Europa ou ainda o desaparecimento do conceito de Federação dos Estados-nação europeus que muitos sonhavam como “Estados Unidos da Europa”.

A Europa enfraquecida, dividida, submissa, exposta aos quatro ventos já não é nada. Incapazes de nos fazer sonhar, de nos fazer imaginar um destino comum, só nos resta desmantelar estas estruturas antes que elas provoquem efeitos deletérios porque na Europa, velho continente carregado de História, quando as coisas correm mal geralmente não acabam mesmo nada bem e continuamos, sem contestar.

Sobre um assunto como este, sobre um tratado como este, sobre disposições como estas, deveríamos ter, da esquerda à direita, dentro e fora de França, uma união europeia evidente de todos os cidadãos, de todas as forças políticas e sindicais, uma união tanto dos que acreditam numa Europa soberana como dos que a rejeitam porque, em qualquer dos casos, um tratado como este é a própria negação da ideia de soberania: quer a pensemos ao nível de uma nação ou dos Estados Unidos da Europa, em ambos os casos… é uma submissão, um abandono, uma resignação.

Este tratado consigna a nossa escravidão não aos Estados Unidos mas às grandes empresas que souberam, através da corrupção, do dinheiro e da força mediática, ganhar o controlo da classe política americana.

O avanço do totalitarismo mercantil acontece à vossa frente. O problema é que é proteiforme, transnacional, não tem exército de ocupação, não tem líder, não tem partido político e, no entanto, é um totalitarismo tão perigoso e violento como todos os outros.

A sua força imensa reside no fato de não ser “incarnado”. Contudo existe, é um parasita alojado em anfitriões sãos cujos comportamentos se alteram progressivamente. Estes anfitriões, que originariamente eram sãos, são organizações políticas, ONG, mídia ou ainda, evidentemente, as nações e os estados onde a política e as ações já não servem os povos e as pessoas mas antes os interesses financeiros de uma ínfima minoria.

Em face de um inimigo como este, sem dúvida o mais temível que tivemos de enfrentar (porque avança disfarçado e indiretamente com atributos sedutores), não nos devemos desencorajar mas antes denunciar e informar sem tréguas. Esta guerra contra o totalitarismo não se ganha com armas mas com palavras. Só poderá conseguir-se a vitória com os ideais que não podemos abandonar. Estes ideais de liberdade, de nação, de soberania ou ainda de democracia, de justiça e de lei não podem ser confiscados pela eutanásia do pensamento e insultos ao livre pensamento, outras ferramentas deste totalitarismo mercantil que tem de suprimir obstáculos no seu percurso expansionista.

Todos e todas que pensam na liberdade, na justiça, na democracia e na nação como quadro de expressão são, evidentemente, outros tantos travões a este totalitarismo que está em marcha.

Não desesperemos, “a noite terminará”.

Entretanto, caros amigos, preparai-vos que já é tarde demais!


Fonte: Economie Matin