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Entrevista a João Ferreira – Deputado do PCP no PE “A crise da União Europeia decorre da sua própria matriz”

Entrevista a João Ferreira – Deputado do PCP no PE “A crise da União Europeia decorre da sua própria matriz”

Entrevista a João Ferreira – Deputado do PCP no PE “A crise da União Europeia decorre da sua própria matriz”

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Há quem acredite conscientemente de que a União Europeia pode ser algo diferente do que é hoje e de tudo o que já foi referido. Pode ser?

A vida deu razão às análises que ao longo de décadas, desde os primórdios do Mercado Comum à União Europeia, o PCP foi fazendo sobre a natureza e a evolução deste processo. A profunda e persistente crise que agora a União Europeia enfrenta não é, ao contrário do que alguns querem fazer crer, resultado de factores circunstanciais, como uma suposta ausência de líderes com dimensão europeia.

Esta crise profunda e persistente decorre dos próprios fundamentos do processo de integração, da sua natureza, dos seus objectivos, da sua matriz, dos seus pilares, que estão inscritos nos seus tratados fundadores. A questão da livre concorrência capitalista no mercado único e da prevalência dessa livre concorrência sobre quaisquer direitos sociais, é algo que está na matriz do processo. E a vida tem vindo a demonstrar que essa é uma matriz inamovível. Portanto o processo não é reformável. O que não quer dizer – e esta é uma questão de enorme actualidade e importância – como alguns querem fazer crer, que a alternativa à União Europeia seja um qualquer regresso aos nacionalismos, ao isolacionismo.

O PCP, com a autoridade de quem sempre combateu o processo de integração capitalista que é a UE, de quem se opôs à entrada de Portugal na CEE, não defende soluções autárcicas ou isolacionistas. A alternativa passa pelo estabelecimento de um outro processo de cooperação entre Estados na Europa, fundado no respeito pela soberania de cada Estado, no princípio da igualdade entre os Estados, no estabelecimento de relações de cooperação económica mutuamente vantajosas e não fundado na assimetria e no benefício de uns à custa do prejuízo de outros. Fundado no progresso social e no desenvolvimento, fundado na paz e na procura de soluções pacíficas para os conflitos. É este outro caminho de cooperação entre Estados na Europa que é necessário procurar e que é possível concretizar.

E como é que se chega a esse “caminho de cooperação”?

Não existindo receitas pré-determinadas, este é um processo que terá de se iniciar com a luta dos povos em cada país pela derrota do processo de integração capitalista. É uma luta que terá de se intensificar a alargar nos vários Estados e que terá de ser sempre feita em nome do progresso social, do desenvolvimento, mas que na raiz terá de ter a intenção de ruptura com a integração capitalista, a intenção de derrota da UE e dos seus intentos, para a partir daí abrir caminho a essas outras formas de cooperação entre Estados. Uma luta contra o livre comércio, o CETA, o TTIP, o completar da União Económica e Monetária. Hoje, esta luta passa pela rejeição de todos estes mecanismos que visam aprofundar a integração capitalista.

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E o que faz Portugal na União Europeia?

Portugal está amarrado a um processo de integração capitalista desde há 30 anos e são três décadas que têm um peso determinante e sem os quais não era possível explicar as dificuldades que o País hoje enfrenta. Para vencer muitos desses problemas e dificuldades, alguns dos quais de natureza estrutural, temos de romper com este processo.

Como ficaria Portugal fora da União Europeia?

É uma questão de resposta difícil. A sua influência negativa não cessaria. Mas estamos hoje confrontados com um cenário que era impensável há uns anos e que, outros que não apenas os comunistas, admitem que é a possibilidade de desagregação, de implosão da própria União Europeia minada que está pelas suas contradições. Não se ignore, todavia, a capacidade de resistência e de adaptação do sistema. O que só reforça a urgência de romper com este processo e de construir as tais outras formas de cooperação.

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