Recentemente relatámos que muitos agricultores europeus se opõem ao acordo comercial UE-Mercosul. Mas porquê?
Pat McCormack, o presidente da Associação de Fornecedores de Leite e Natas na Irlanda, um sindicato representante de grande parte dos agricultores irlandeses – especialmente produtores de leite e gado -, tem vindo a declarar desde 2019 que o acordo com o Mercosul sofreu uma falha fatal desde o início com a ideia de que os regulamentos e regras que a União Europeia aplica a seus próprios agricultores não seriam aplicados a agricultores e países dos quais pretende importar grandes quantidades de alimentos, principalmente carne, soja e açúcar.
“As percepções mudaram. O pessoal mudou. A ideia de que a segurança alimentar é uma ideia abstrata que não é importante também mudou; as pessoas sabem agora, em plena pandemia Covid-19, como é fundamental a soberania alimentar e garantir a nossa própria produção de alimentos”, destacou Pat McCormack. A actual pandemia tem demonstrado que as redes de comércio podem sofrer disrupções a qualquer momento, e a dependência de importações agrícolas pode resultar em catástrofes humanas. Tem sido defendida uma maior autonomia e resiliência agrícola em resposta às lições aprendidas, mas o acordo UE-Mercosul viria precisamente no sentido oposto.
Os agricultores europeus são cada vez mais confrontados com uma legislação ambiental mais exigente, e com este acordo seriam obrigados a concorrer com agronegócios de escala muito maior e com práticas absolutamente à margem dessa exigência, o que poderia levar muitos destes à falência. A produção de enorme escala com métodos de cultivo intensivos com agrotóxicos perigosos para a saúde humana tornam os produtos mais baratos, o que conduz a uma competição desleal. Diversos métodos de produção alimentar usados nos países do Mercosul são proibidos na Europa.
McCormack argumentou que, caso o acordo seja renegociado, deverá ser “no mesmo quadro ambiental e sustentável para a UE e os países do Mercosul”.
Vejam também o relato do agricultor português Francisco Burnay sobre o acordo UE-Mercosul.






