Evagellos Vallianatos e Mckay Jenkins, 23/02/2015, Independent Science News
Tradução e adaptação de José Oliveira
Richard Feynman, cientista famoso, declarou em 1966 que a ciência é a crença na ignorância dos especialistas. Sempre ágil em desafiar o conhecimento aceite, este homem distingue bem entre a ignorância laudatória da ciência …e a ignorância perigosa dos peritos que professam tais certezas….
Alertou também para a “ produção da espécie de tirania que temos hoje nas muitas instituições que sobrevivem sob a influência de conselheiros pseudo-cientistas”….
As políticas que afectam cada aspecto das nossas vidas são hoje baseadas em perigosas formas de ignorância.
Um primeiro caso tem a ver com a Environment Protection Agency (EPA) onde um alto funcionário foi recentemente preso e multado por arrecadar pagamentos e bolsas durante décadas por trabalhos inexistentes, alegando que estava a trabalhar para a CIA em outro local. Esta fraude de longo-prazo não surpreende Vallianatos que trabalhou muitos anos na divisão de pesticidas da EPA, no departamento oficialmente responsável pela protecção da saúde humana e do ambiente contra os venenos comerciais. O seu livro Primavera Envenenada (Poison Spring) documenta a cultura de fraude e corrupção que infesta cada esquina e cada armário da agência. Além disso, ainda temos os milhares de novas aplicações de pesticidas acumuladas todos os anos, cada uma apoiada pelos estudos de segurança relativos aos padrões federais. Contratados como cientistas, os funcionários da EPA passam o tempo a recortar e colar estudos das indústrias e suas conclusões para colocar tudo em impressos onde registam e carimbam o selo da aprovação. Ao abrigo da legislação controlada pela indústria, uma vez um pesticida registado, nunca mais poderá deixar de o ser sem haver provas massivas e inequívocas do mal que provoca.
Mas como se este mau uso da ciência ainda não fosse suficiente, as auditorias feitas pelo Food and Drug Administration (FDA) e pela EPA descobriram que a maioria dos milhares de estudos sobre segurança utilizados para aprovar os registos dos pesticidas não eram mais que fraudes. A EPA, alertada pelo cientista Adrian Gross, descobriu já em 1976 que os laboratórios BIOtest, autores de muitos dos testes sobre segurança dos pesticidas submetidos pelos fabricantes à agência, tinham sido rotineiramente falsificados, os dados falseados e os resultados alterados. Investigações subsequentes a outros laboratórios de testes encontraram práticas análogas em mais de metade dos casos auditados que apoiavam as decisões da EPA àcerca dos pesticidas registados permitidos).
O caso BIOtest não é único em termos de fraude científica, explica Vallianatos. É um excelente exemplo de uma cultura científica desviante e sombria, com profundas raízes no mundo do agrobusiness, das indústrias químicas, das universidades e até do governo.
Desde 1979 e durante os anos em que a EPA tremeu sob o escândalo referido, Vallianatos trabalhos para agência. Aprendeu imediatamente que nem um único registo de pesticidas foi cancelado devido a testes fraudulentos os dados inexistentes. Em vez disso, nota, a reacção da agência foi o outsourcing. Até encerrou os seus próprios laboratórios de testes, fechou os registos de dados sobre a toxicidade de milhares de substâncias e fez o outsourcing d todos os estudos de avaliação suportados pelas indústrias. A conclusão evidente mas nunca admitida deste outsourcing governamental tem sido a aceitação de todos os dados fornecidos pela indústria como sendo sempre satisfatórios. Este ponto é hoje relevante, uma vez que os químicos como o 2,4D e o Glyfosato (da Roundup) cujo uso tem sido amplamente incrementado pelos fabricantes de produtos OGM, foram originalmente registados com base em estudos da BIOtest já invalidados.
Durante o primeiro ano de trabalho efectivo de Vallianatos na EPA em 1980, cerca de 1,1 biliões de libras de agentes activos dos pesticidas foram aplicados nas culturas americanas, número que não inclui usos domésticos, em parques públicos, campos de golfe ou áreas municipais. Em 2011, 2 biliões de libras de pesticidas foram vendidos nos EUA. A maior parte, se não todos, carecem de testes corretos de validação até hoje. Aprofundando a fraude, Vallianatos esclarece que o ingrediente activo é apenas a ponta do iceberg, uma vez que representa apenas 1% do produto. O restante é um cocktail secreto de ingredientes ditos inertes que são muitas vezes muito mais tóxicos do que o próprio ingrediente activo. Nas suas palavras, “a ciência fraudulenta do big business” substitui qualquer arremedo de protecção ambiental.
O livro Primavera Envenenada elenca algumas das consequências da fraude generalizada desta agência enleada nas suas mentiras: encobrimento dos níveis de dioxina na água potável e nos corpos de bebés mortos, supressão rotineira de dados que ligam os pesticidas ao aumento de casos de cancro, malformações neo-natais, doenças crónicas; acesso da indústria a tudo; portas-giratórias entre os administradores ao serviço dos interesses corporativos e os agentes políticos que desmantelaram os laboratórios e as bases de dados da EPA para eliminar as provas; cortes nos fundos dos que investigam alternativas não-tóxicas; perseguição feroz aos denunciantes; e por fim, a nomeação de burocratas que, com pleno conhecimento das consequências , estabelecem políticas que resultam no sofrimento e na morte das pessoas. Vallianatos refere que todo o livro relata o modo como a burocracia enlouqueceu. Mas ela não enlouqueceu sozinha. Precisa da tolerância e da indiferença pública e da cumplicidade da comunidade científica…A ciência a política tornaram-se num suporte da indústria dos pesticidas e do agrobusiness. Esta fraude monumental exige remédios drásticos como a total reconstrução da EPA, tornando-a independente da indústria, remoção dos incentivos à agricultura em larga escala e apoios à agricultura familiar e biológica…
Os antigos agricultores sabiam bem o que faziam e estão a regressar lentamente. Nunca usaram venenos industriais






