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Rana Plaza

Rana Plaza

Rana Plaza

Faz hoje 6 anos que aconteceu a falha estrutural de um edifício, a mais letal da história moderna, que resultou em 1134 mortos e cerca de 2500 feridos. Não foi um erro de engenharia, para isso teria de haver engenharia envolvida, foi antes um exemplo de que quando o comércio é injusto, se transforma num assassino em massa.

Por acaso já fez compras na Mango, El Corte Inglés, Benetton ou Primark? Se sim, muito provavelmente fez um compromisso entre qualidade e preço e poderá ter decidido pagar um pouco mais por uma peça com um pouco mais de qualidade. De facto, um trabalho de qualidade merece ser recompensado. Vejamos então quem faz essas peças de roupa e como é recompensado.

Uma grande parte é feita no Bangladesh, o quarto maior exportador de roupa do mundo. Neste país, a maioria dos trabalhadores ganha pouco mais que o salário mínimo de aproximadamente 30€ por mês, o que está longe dos 50€ necessários para as necessidades básicas de uma família. Muitos trabalham 14 a 16 horas por dia, sete dias por semana. Estima-se que cerca de 85% da força de trabalho sejam mulheres, frequentemente sujeitas a assédio sexual e que são, muitas vezes, o único sustento económico de uma família. Tendo em conta que num período de trabalho de 8 horas são exigidas 150 peças de roupa e que essas são vendidas em países como Portugal a cerca de 20€ a unidade, não é difícil perceber de onde vem a fortuna de 2,6 mil milhões de euros da família Benetton ou de 4,8 mil milhões de euros de Isak Andic, fundador da Mango.

Para que  este negócio funcione, as multinacionais do vestuário recorrem a pessoas como Sohel Rana, um gangster com fortes ligações a um dos maiores partidos políticos no Bangladesh. Apesar do seu envolvimento com o tráfico de drogas e armas, Sohel Rana enriqueceu aparentemente graças ao negócio imobiliário. Um dos seus maiores negócios era o Rana Plaza. Após intimidar um sócio seu para lhe ceder um terreno com um lago que ambos tinham comprado, Rana conseguiu, através de influências políticas, em 2008, a aprovação para construir nesse terreno o Rana Plaza, originalmente de 5 andares, apesar da desadequação dos solos para a construção. A construção foi feita com materiais de baixíssima qualidade e com armaduras de metal subdimensionadas, sem a supervisão de um engenheiro ou arquitecto. Em 2010 foram adicionados 3 andares, sem paredes de suporte. Nesse edifício funcionavam, nos primeiros andares, lojas e um banco e do terceiro ao oitavo andar, apesar de ser completamente desadequado para esse efeito, funcionavam fábricas de roupa que empregavam cerca de 5000 trabalhadores. Para lidar com as falhas de electricidade, o edifício estava equipado com geradores que, quando trabalhavam, faziam tremer toda a estrutura.

A 23 de Abril de 2013, quando se acrescentava um nono andar ao edifício, depois de ligados os geradores ouviu-se uma enorme explosão, apareceram rachas em todo o edifício, e os trabalhadores assustados pararam de trabalhar e saíram. Uma TV local deu a notícia e um engenheiro visitou o local, tendo recomendado que o edifício fosse fechado. Usando a sua influência nos meios de comunicação locais, Sohel Rana fez passar a história de que um engenheiro tinha dito que o edifício estava seguro e que as fissuras eram apenas do estuque.

A 24 de Abril as lojas e o banco não reabriram, mas as fábricas continuaram a funcionar, assim como as creches associadas a essas fábricas. Os patrões ameaçaram com despedimentos e com o não pagamento dos salários em atraso – uma forma de coacção muito comum nesse país -, se os trabalhadores não comparecessem. Às 9 da manhã o previsível aconteceu e o edifício desabou.

A operação de resgate durou até ao dia 13 de Maio e foi, de acordo com a ONU, feita com meios pouco adequados. Por uma questão de orgulho nacional, o governo recusou diversas ofertas de ajuda internacionais e tentou terminar o resgate prematuramente.

Sohel Rana foi preso a 28 de Abril de 2013 e ainda aguarda o julgamento final, que se vai atrasando devido aos sucessivos recursos.

Das 29 marcas identificadas como tendo produtos fabricados na Praça Rana (que deu a este trágico episódio o nome internacional Rana Plaza), várias recusaram contribuir para um fundo de indemnização, apoiado pela Organização Internacional do Trabalho, incluindo a Carrefour e a JCPenney. Várias famílias não foram compensadas por não terem conseguido os documentos necessários para comprovar as suas reivindicações e várias lutam pela sobrevivência, depois de terem perdido a principal fonte de sustento económico.

A complexidade das relações entre as empresas, quer ao nível das cadeias de produção, quer ao nível da posse do capital, permite às empresas multinacionais fugir às suas responsabilidades e garantir a sua impunidade. O caso Rana Plaza é um exemplo dramático desta situação inaceitável.

As empresas transnacionais não podem beneficiar de um sistema de justiça que as deixa impunes. É por isso que urge aprovar o Tratado Vinculativo na ONU e legislação contra a impunidade empresarial.

Assina e divulga a petição “Direitos Humanos primeiro! Justiça igual para todos!” para pôr fim a uma “justiça” ao serviço das empresas multinacionais.