As empresas multinacionais poderão usar muito mais facilmente o Fracking com a entrada em vigor dos tratados CETA e/ou TTIP, por isso achamos importante explicar as consequenciais desta tecnologia.
Estes autores são os primeiros a documentar sistematicamente doenças no gado, animais domésticos e pessoas que vivem perto dos poços de fracking. A 1ª é veterinária e o 2º é professor de medicina molecular na univ.de Cornell.
Muitos produtos químicos usados no fracking são conhecidos carcinogéneos, disruptores endócrinos e outras classes de tóxicos (Colburn et al. 2011). Os estudos de Bamberg e Oswald levados a cabo durante o boom do fracking, permitiram descobrir sérios efeitos adversos, incluindo problemas respiratórios, reprodutivos e de crescimento em animais, bem como um largo espectro de sintomas em humanos que, no conjunto, foram denominados “síndrome do gás de xisto”. Ultimamente, a sua pesquisa levou-os a considerar ir ainda mais longe, equacionando efeitos nos agricultores e no sistema alimentar (Bamberg e Oswald, 20149).
O seu novo livro “O custo real do fracking: como o gás de xisto americano ameaça as nossas famílias, animais e alimentação”, descreve os resultados da sua investigação. É através da denúncia dos efeitos perversos e perigosos do fracking nas vidas dos moradores, que os dois investigadores melhor colocam a nu os seus custos reais.
Casos detalhados
Numa sua publicação de 2012, os dois investigadores compilaram os resultados de 24 casos de estudo relativos a 6 estados onde foram feitas perfurações. Documentam incidentes de saúde ocorridos em animais e humanos que viviam perto dos poços e também identificaram possíveis problemas na exposição aos químicos do fracking. Estes dados foram publicados e as suas conclusões discutidas em diversas publicações científicas (2012-2014).
A obra “O custo real do fracking” descreve estes resultados. O livro está organizado em torno das experiências em 1ª mão com animais e pessoas em 7 dos casos de estudo. Estas experiências incluem perda de vitelos, manada de quarentena devido ao derrame de água contaminada, bois e cães com problemas de reprodução, problemas respiratórios em cavalos e outros. Os autores encontraram crianças com elevados níveis de arsénico, adultos com dramáticas quedas de peso e famílias inteiras sofrendo do síndrome do gás de xisto, uma combinação de ardências nos olhos, infecções de garganta, dores de cabeça, sangramento nasal, vómitos, diarreia, erupções cutâneas e outros problemas… Alguns residentes nem conseguem entrar nas suas casas sem ficar seriamente doentes, enquanto outros perderam o seu gado e o seu ganha-pão.
Durante a pesquisa, os dois investigadores também se deram conta da indiferença governamental e das táticas da indústria para contornar os problemas de saúde das pessoas e as questões financeiras. Essas incluem o secretismo sobre os químicos usados, e que impossibilitam o adequado tratamento médico (McDermott-Levy et al.2003), bem como a perseguição e intimidação aos residentes que se queixam.
Obstáculos à pesquisa científica e provas da perigosidade
Ao mesmo tempo que revelam estes dados, Bamberg e Oswald descrevem as complexidades de levar a cabo a pesquisa nas zonas operadas por uma indústria que trabalha no secretismo. Acordos sobre não divulgação de dados permitem esconder evidências importantes. Sempre que as vítimas do fracking recebem alguma compensação financeira, são obrigadas a assinar tais acordos que as impedem de revelar ao público as doenças derivadas do fracking e outras perdas.
Idealmente, como prova de perigosidade, os cientistas deveriam estabelecer uma conexão entre químicos específicos e problemas de saúde específicos. Isso requer testes para provar que o produto estava ausente antes da perfuração e estava presente depois. Os investigadores têm de estabelecer assim um percurso, por exemplo, água contaminada com o químico. Finalmente, uma avaliação de saúde independente confirmaria que os sinais da doença estavam ausentes antes da exposição aos químicos e presentes depois.
Além dos acordos de não divulgação, o livro alerta para outras barreiras que impedem o estabelecimento dessas relações. Em 1º lugar não há qualquer testagem sistemática do ar, solo, e da água nas zonas de perfuração nem nas imediações. Também não existe monitorização sistemática da saúde. Além disso, sem uma revelação completa sobre a composição dos químicos usados em cada perfuração, os investigadores, veterinários e médicos não podem ter a certeza sobre quais os químicos que afetam a saúde, nem podem testá-los.
A testagem sistemática em larga escala que é necessário fazer, só pode ser realizada com o apoio do governo e das entidades reguladoras. Para servir o interesse público, tem de ser levada a cabo por entidades confiáveis e os resultados têm de ficar acessíveis ao público. De modo altamente perverso, os funcionários do governo e os reguladores, ao não exigir essa testagem, conluiam-se com a indústria, dizendo que não há provas da perigosidade do fracking.
Doenças relacionadas com o fracking
Apesar destes obstáculos, os dois investigadores mostram que os residentes sofrem novos e sérios problemas de saúde, de bem-estar e de sobrevivência, após o início do fracking. Estabeleceram que animais e humanos têm sintomas relacionados no tempo com as operações de perfuração. Em muitos casos conseguiram identificar percursos da exposição às toxinas. A água dos poços é um dos mais prováveis, pois foi contaminada com metano, que tem a assinatura isotrópica do gás de xisto. Estes resultados sugerem que, além do metano libertado pelo fracking, outros químicos mais tóxicos terão contaminado também a água dos poços.
Bamberg e Oswald fortalecem a relação entre o fracking e as doenças, com relatos de clínicas da Pensilvania e Colorado que reportam casos de pacientes a viver perto das zonas de fracking que também sofrem do síndrome do gás de xisto. Após a publicação dos seus resultados, outros investigadores têm reportado problemas de saúde relacionados com o fracking. Naturalmente que esses estudos não identificam todos os problemas nocivos do fracking. Em particular, os problemas reprodutivos em animais documentados por Bamberg e Oswald, sugerem que as pessoas que vivem e trabalham perto dos locais de perfuração também precisam ser sujeitas a amplos testes sobre efeitos reprodutivos e outros de longo-prazo.
Agricultura, alimentação e fracking
Os dois investigadores fizeram um excelente trabalho na denúncia dos efeitos nocivos do fracking sobre os residentes. Contudo, a relação dos seus dados com os de outros cientistas, permitiu encarar preocupações mais abrangentes. As suas análises sugerem que o alargamento do fracking tem um impacto bastante negativo na agricultura e na qualidade da alimentação nos EUA e talvez até no mundo. Os furos estão geralmente localizados perto ou mesmo dentro das fazendas. Logo, os pastos, as sementeiras, os regatos, lagos e poços estão risco de contaminação pelas toxinas usadas ou libertadas durante a perfuração. Sabe-se que ocorrem derrames durante a perfuração, a injecção de fluídos a alta pressão ou até durante o transporte. Outras vias de exposição são os depósitos com fugas ou até o despejo intencional. Os animais podem beber água contaminada ou alimentar-se em pastos contaminados. O ar contaminado também pode comprometer a saúde animal e humana. A qualidade do ar é degradada pelo aumento do tráfego rodoviário (500 a 600 viagens de camião por poço), pelos lagos onde é despejada a água poluída e pelos químicos libertados durante a queima intencional dos gases, bem como pela presença permanente de benzeno nos locais de perfuração.
Estas ameaças ao sistema alimentar são potenciadas pelo conjunto de produtos que entram nas cadeias industriais de comida processada que chegam directamente ao público sem testagem adequada e devida regulamentação. Além disso, as pressões financeiras, encorajam os agricultores a enviar os animais doentes para o sistema alimentar. Bamberg e Oswald sublinham que o fracking tem implicações tanto na agricultura industrial como familiar devido ao impacto nas colheitas, gado, terra, ar e água.
Um poderoso aviso
Estes dois investigadores juntam-se a outros que também se sentiram compelidos a vir a público. O seu livro completa outros como o de Rachel Carsons “Silent Spring”, o de Sandra Steingraber “Living Downstream” e o de T. Colin Campbell “The China Study”. Todos avisam sobre a crise de saúde e ambiente inteiramente evitável e que está a ser ignorada e até escondida pelos poderes vigentes. Esses livros são especialmente valiosos tanto pela qualidade da sua escrita como pela autoridade e integridade dos seus autores e pelo seu conhecimento.
Através dos documentos sobre o boom do fracking, torna-se claro que a sua contribuição para o impacto das alterações climáticas é muito maior do que inicialmente se julgava (Caulton et al. 2014, Howarth 2014, Schneising et al. 2014). O “Custo Real do Fracking” vem dar voz a todos os que o sofrem e constitui um sério aviso a todos nós:
“Big Picture Study of Fracking Operations Suggests Even Small Chemicals Exposure Pose Risks”, 2014.
Michelle Bamberg e Robert Oswald, Independent Science News, 24, Nov., 2014
Tradução e adaptação de Manuel Fernandes






