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O acordo com o Mercosul e os Açores

O acordo com o Mercosul e os Açores

O acordo com o Mercosul e os Açores

A União Europeia e o Mercosul fecharam no final de junho o “Acordo de Associação Estratégica”, ou seja, um acordo de comércio que criará uma das maiores áreas de comércio livre do mundo.

A UE e os países do Mercosul têm uma população de 770 milhões de habitantes com cerca de 100 mil milhões de euros em comércio bilateral. Os produtos agropecuários são a principal exportação dos sul-americanos, enquanto os europeus exportam principalmente produtos industriais, (como os automóveis) e produtos farmacêuticos.

Este é mais um grande acordo comercial da UE nos últimos anos, depois de em 2017 o CETA – Acordo de comércio livre entre a UE e o Canadá – ter sido concluído definitivamente.

Mas o que contém exatamente o acordo com o Mercosul?

Ninguém sabe exatamente, para além do que é dito pelos governos nacionais porque o texto do acordo ainda não é conhecido.

Este acordo comercial, como outros, foi negociado em secretismo. Claro que os seus defensores pintam um cenário cor-de-rosa, com benefícios para todos: aumento das exportações agrícolas para a UE a partir do Mercosul, através da eliminação de tarifas alfandegárias, e aumento das exportações industriais da UE para o Mercosul. Mas será mesmo que todos ganham?

Não será bem assim! A agroindústria sul-americana não cumpre os mesmos padrões ao nível da segurança alimentar e do ambiente existentes na UE.

No que respeita ao ambiente, a UE fechou os olhos à crescente destruição das florestas no Brasil para plantar soja, tratada com pesticidas vendidos pelas multinacionais europeias – pois claro – e para aumentar os terrenos de pastagem para gado! A previsível expansão da agroindústria sul-americana só reforça esse caminho do desastre, com Bolsonaro ao leme.

Para os Açores e para o setor agrícola regional, este acordo tem tudo para ser mais uma frente fria a somar à tempestade perfeita que se vive na agropecuária. A inundação do mercado europeu de produtos agropecuários baratos – produzidos com a ajuda dos pesticidas e herbicidas das multinacionais europeias, verdadeiras beneficiárias deste acordo – acentuará a crise do setor.

Têm razão por isso o deputado do PSD, António Ventura, e o Governo Regional dos Açores, do PS, em mostrarem-se preocupados com o acordo de comércio livre entre a UE e o Mercosul.

Mas é preciso lembrar que os mesmos PS e PSD, têm votado favoravelmente os diversos acordos de comércio livre da UE na Assembleia da República (AR). O último foi o acordo de comércio entre a UE e o Canadá, aprovado na AR por PS, PSD e CDS, com os os votos contra dos restantes partidos.

Este acordo com os países do Mercosul também tem de ser ratificado pelo parlamento nacional. Segue, como tantos outros acordos de comércio livre, a mesma lógica de secretismo nas negociações, desregulação da economia, ataque ao ambiente, e aos direitos laborais e colocando em causa a segurança alimentar, em benefício das grandes multinacionais e da grande agroindústria.

É certo que a composição da próxima Assembleia da República só será conhecida em outubro, mas a história indica claramente quem estará, do lado dos grandes interesses económicos das multinacionais e contra a agricultura açoriana, com mais, ou menos, problemas de consciência, e mais, ou menos, declarações de voto.


por António Lima
https://www.esquerda.net/opiniao/o-acordo-com-o-mercosul-e-os-acores/62524