Durante mais de uma década, residentes de uma região no Noroeste de Espanha, lutaram contra um projecto de exploração de urânio, o qual ameaçava as suas pastagens e deixaria para trás um rasto de resíduos radioactivos. Recorreram aos tribunais espanhóis e conseguiram impedir a mina. Agora, a proprietária da mina, a empresa australiana Berkeley, instaurou um litígio contra a Espanha ao abrigo do Tratado da Carta da Energia. A empresa pede uma indemnização que pode ascender a mil milhões de dólares – dez vezes superior ao valor estimado do seu investimento no projecto. É possível que a mina nunca tenha passado de um “tigre de papel”, concebida sobretudo para extrair dinheiro dos mercados financeiros.
Entre a antiga cidade de Salamanca e a fronteira hispano-portuguesa, estende-se a pitoresca região de Campo Charro. Os prados de azinheira constituem a paisagem típica, sendo o pastoreio de gado uma fonte de rendimento essencial na região. “É a minha vida”, diz Ángel Abarca, um criador de gado da região, contudo, teme vir a perder o seu meio de subsistência, devido a um projeto proposto de mineração de urânio. “Tudo isto deixaria de ter valor – a terra, o gado. Quem é que quer comprar carne contaminada por radioactividade?”, questiona. [1]
Ángel faz parte da Stop Uranio, uma iniciativa cidadã que luta contra o projecto de mineração desde 2013. [2]A Berkeley é uma empresa australiana que se apresenta como uma empresa de mineração, embora, na realidade, nunca tenha extraído qualquer minério. A empresa propõe desenvolver três jazigos distintos de urânio na região, em minas a céu aberto e com recurso a produtos químicos para a extracção do metal. [3] A Berkeley planeava despejar os resíduos radioactivos do projecto em grandes valas, situadas nas proximidades não só de uma reserva natural, como de pontos de captação de água potável e de uma instância termal romana.
“Uma mina de urânio a céu aberto é algo brutal. Estamos a lidar com materiais radioactivos. Todo o pó libertado é distribuído pelo meio-ambiente… Contaminaria o rio Yeltes, e o rio Yeltes desagua no Douro… Toda a margem do rio Douro ficaria contaminada pela mina.” — Francisco Castejón, investigador de fusão no instituto CIEMAT, em 2018 [4]
Não à mina, sim à vida
A Stop Uranio uniu-se a outros grupos ambientalistas e antinucleares espanhóis para consolidar a resistência ao projecto. Realizaram centenas de reuniões com responsáveis políticos e organizaram inúmeras manifestações contra a mina. Encomendaram estudos técnicos, apresentaram petições e recorreram aos tribunais, onde contestaram as licenças concedidas à Berkeley. O slogan “Não à mina, sim à vida” era visto espalhado pelas paredes.
“É uma luta muito longa, uma luta como a de David contra Golias.”, disse Jorge Rodriguez à imprensa alemã em 2018. Na altura, este era o presidente da Câmara Municipal de Villavieja de Yeltes, uma cidade próxima de uma das minas propostas. [5] Nesse mesmo ano, 40 municípios da província de Salamanca assinaram um manifesto contra o projecto planeado. [6]
A Agência Nuclear e o Tribunal Superior suspendem projeto
A resistência popular surtiu efeito. Em Julho de 2021, o Conselho de Segurança Nuclear de Espanha recomendou pela rejeição do projecto de mineração de urânio, citando “a baixa fiabilidade e as elevadas incertezas” da avaliação de risco relativa às instalações de armazenamento de resíduos radioativos. [7]
Em 2023, na sequência de um processo interposto pela Stop Uranio e pela Câmara Municipal de Villavieja de Yeltes, duas licenças adicionais foram anuladas pelo Tribunal Superior de Justiça de Castela e Leão, por violarem normas ambientais. [8] A sentença foi confirmada em recurso em 2024, impedindo na prática a construção da infrastructura principal pela Berkeley.
“Estamos felizes por começar a ver o fim do pesadelo da mineração de urânio no nosso país”, comemorou Cristina Rois, do grupo ambiental Ecologistas en Acción. [9] A Stop Uranio também comemorou: “A empresa mineira Berkeley fora do Campo Charro!!!!!!… Defenderemos a nossa terra com unhas e dentes. Adiooooossssss”. [10]
A verdadeira mina de ouro da Berkeley: uma indemnização massiva ao abrigo do ISDS
Mas este não foi o fim da história. A Berkeley está agora a utilizar uma via legal paralela, na tentativa de lucrar com o seu projecto fracassado. Em Maio de 2024, iniciou um litígio contra a Espanha ao abrigo do Tratado da Carta da Energia (TCE). O TCE concede aos investidores estrangeiros do sector energético amplos poderes para processar os Estados por acções governamentais que alegadamente tenham “prejudicado” os seus investimentos. Os investidores recorrem a um sistema paralelo de arbitragem, baseado em tribunais tendencialmente a favor do investidor, onde o pagamento de indemnizações que os governos são obrigados a efectuar podem ascender a milhares de milhões.
A Berkeley argumenta que o Conselho de Segurança Nuclear “agiu de forma discriminatória e arbitrária” ao analisar os planos da empresa. Alegadamente, o regulador solicitou informações à Berkeley que não solicitou a aoutras empresas em projectos semelhantes. A empresa também alega que o governo espanhol “não seguiu o procedimento legalmente estabelecido”, ao acatar a recomendação do regulador e rejeitar a licença da Berkeley, sem considerar as informações adicionais fornecidas pela própria empresa. [11]
“O caso Berkeley poderá dar origem a dois cenários possíveis, de interesse para os investidores no sector do minério em Espanha: 1. a retoma do projecto de mineração, ou 2. o pagamento de uma compensação financeira significativa à Berkeley.” – Advogados da sociedade especializada em direito de arbitragem Clyde & Co. [12]
De acordo com um comunicado de imprensa de Maio de 2024, a Berkeley exige a indemnização de cerca de 1 mil milhão de dólares. [13] Este montante é dez vezes superior ao valor estimado do investimento feito pela empresa no desenvolvimento deste projecto (cerca de 100 milhões de dólares) [14] – correspondente à aquisição de terrenos e de equipamento, à contratação de consultores, entre outros.
Será que a própria reivindicação ao abrigo do ISDS é, na realidade, a verdadeira mina de ouro da Berkeley? [15]
Um projecto especulativo desde o início?
O projecto de mineração da Berkeley tem sido considerado por alguns como um projeto especulativo: através da exageração das perspectivas de minério, a Berkley consegue inflacionar o preço das suas acções. [16] De facto, a avaliação da Berkeley no mercado de acções já passou por pelo menos dois ciclos de subida e de queda. [17]
Em 2018, uma investigação do jornal El Salto revelou que três antigos executivos da Berkeley foram responsáveis pelo escândalo UraMin em França. [18] Tratou-se de um caso de corrupção e fraude, onde a empresa estatal francesa de urânio, Areva, adquiriu a empresa canadiana UraMin por uns impressionantes 2,5 mil milhões de dólares – apenas para descobrir posteriormente que tinha sido vítima de uma enorme fraude: os “valiosos” activos de minério da UraMin eram, na realidade, desprovidos de valor. Os 2,5 mil milhões de dólares, no entanto, já tinham desaparecido. [19]
O modelo de negócios da UraMin – inflacionar o valor das suas acções através de continuadas notícias positivas e estudos de viabilidade manipulados – poderá estar a ser replicado pela Berkeley. Esta chegou inclusive a recorrer, para a realização dos seus próprios estudos de viabilidade, à mesma consultora que providenciou cálculos manipulados para a UraMin. [20]
Em vez de gerar lucros com a mineração propriamente dita, os recursos minerais são usados como garantia para especulação, gerando dinheiro através da venda de acções na bolsa. “A empresa cria uma imagem de sucesso iminente e de credibilidade, quando, na realidade, o seu projecto é pouco mais do que um «tigre de papel»”, explica o grupo ambiental Ecologistas en Acción, numa análise das diferentes empresas de mineração especulativas a operar em Espanha. [21] Neste mundo, reivindicar indemnizações de milhares de milhões de dólares contra governos é apenas mais uma forma de inflacionar o preço das acções no mercado. Bem-vindos ao ISDS, o paraíso dos especuladores.
Visto a empresa não ter respondido a um pedido, da nossa parte, relativamente aos seus investimentos, optámos por realizar um estimativa. A Agosto de 2022, a Berkeley tinha investido >90 milhões de euros (~ US$92), segundo uma apresentação da empresa. Ver: Berkeley Energía: Salamanca Project Update, Agosto 2022, p. 2. Segundo o relatório anual para os accionistas, de 2024, os custos totais da empresa para os anos fiscais de 2023 e 2024 foram cerca de 13 milhões de dólares – valor provavelmente inferior ao investimento total no projecto Salamanca. Assim, a estimativa que fazemos é de, aproximadamente, 100 milhões de dólares para o investimento total realizado no projecto à altura que a Berkeley instaurou o litígio ISDS.
A Berkeley foi contactada por múltiplas instâncias, via e-mail, sem nunca ter respondido às questões.